11/02/11

A Vodacom ameaçou-me de morte

28/10/10

O Sporting Clube de Portugal e Luís Duque

26/10/10

O inimigo externo

12/08/10

Morreu Ruy Duarte de Carvalho

24/08/09

Actualizações do blog na versão wordpress

O ma-schamba está a ser actualizado na versão wordpress, resolvida que foi a questão do acesso ao servidor.

01/08/09

Vai um homem na rua para encontrar um amigo, que o segura, mão no braço e, entusiasmado, lhe lê






Jazz

Vejo renderes-te a esse desejo
tocando notas musicais espirituais,
em gestos angelicais,

vejo em ti um corpo celestial,
bebo em ti o gosto da música
fazes-me sonhar,

mas que música será esta?
virá da tua mão? um simples mortal?

quem será mesmo o autor?
talvez, quem sabe,
um emprestador da mão e da voz de Deus.


[Sónia Sultuane, No Cola da Lua, edição da autora, 2009]


"... a vitalidade nunca "se pega". Existe ou não existe em nós como a saúde, os olhos castanhos, a honra ou a voz de barítono." (p. 64)

Chapa, Ilha de Moçambique, Maio de 2009

31/07/09



"...[o general] Ivan Cherniakovski estava a dirigir outra das suas ofensivas, que morreu só no meio de uma estrada, que foi duas vezes Herói da União Soviética, que ganhou a Ordem de Lenin, quatro ordens da Bandeira Vermelha, duas ordens de Suvórov do Primeiro Grau, a Ordem de Kutúzov do Primeiro Grau, a Ordem de Bogdan Jmelnitzki do Primeiro Grau e numerosas incontáveis medalhas, que por iniciativa do Governo e do partido se erigiram monumentos seus em Vilnius e Vinnitsa (o de Vilnius seguramente hoje já não existe e o de Vinnitsa provavelmente também foi derrubado), que a cidade de Insterburg na antiga Prússia Ocidental se chama agora, em sua honra, Cherniajovsk, que o koljoz da aldeia Vérbovo no distrito de Tomashpolsky também tem o seu nome (hoje nem sequer existem koljoz), e que na aldeia de Oksánino do distrito de Umanski na região de Cherkassi se levantou um busto de bronze para celebrar o grande general (corto-os rentes se o busto de bronze não foi substituído; hoje o herói é Petliura; amanhã quem sabe). Enfim, como diz Bibiano citando Parra: assim passa a glória do mundo, sem glória, sem mundo, sem uma miserável sanduíche de mortadela."

(Roberto Bolaño, Estrela Distante, Teorema, tradução de Jorge Fallorca, pp. 60-61)

Lisboa

Isto da distância (e da idade?) fez-me perder toda a paciência para o piadismo lisboeta. Fico cheio de pontos de exclamação.




Foi só abrir ao calhas uma página deste "Morte a Crédito" (Assírio & Alvim, 1986, tradução de Luíza Neto Jorge). A qual valerá mais do que muito tralha junta. Lisboeta e não só.

"Ter-lhe-ia corrido melhor, dizia Bibiano, na direito, mas, mistério, os Di Angeli são às legiões nas hostes de esquerda; pelo menos, dizia, ainda não se dedica à crítica literária, mas lá chegará. Com efeito, durante a espantosa década de 80 passei os olhos por algumas revistas mexicanas e argentinas e encontrei vários trabalhos críticos de Di Angeli. Creio que tinha feito carreira."

(Roberto Bolaño, Estrela Distante, Teorema, p. 66, tradução de Jorge Fallorca - uma edição menos cuidada do que o autor merece).

O Calhau


Abrando, ali prestes ao semáforo, e ouço "Velho!". Horrorizado olho a voz e lá está, risonha, a bela "amiga" repetindo-se, "estás velho!". Deixo-lhe o esgar que consigo e arranco. A lembrar-me que exactamente hoje passam vinte anos que entrei no Calhau. "Velho".

29/07/09

Viagens na Minha Terra

1. Fiordes Algarvios.


Sotavento algarvio, primeira entrada no areal. A princesa, surpresa e até incomodada, questiona-me “Pai, por que é que há tanta gente na praia?” e, enquanto tartamudeio uma explicação patriótica, entramos na água … até aos seus joelhos. “Ixe, está fria!!!” exclama enquanto, de imediato, os dentes lhe começam a bater. Sorrio, mas aterrado, pois é óbvio que lhe vai ser difícil assim crescer, entre os fiordes algarvios.


2. Leituras de férias.




O i - que agora conheci – tornou-se o mais agradável e o mais profundo jornal diário português. O melhor.


3. A Crise.









Proto-comprador visito uma casa do “tempo da guerra”, ali “às avenidas”, um tal custo que não o conseguiria pagar no tempo de vida que me restará, por optimista que seja. As vendedoras, um duo já sem idade para frescuras BE nem aspecto da célula PC do sector imobiliário, respondem ao meu continuado espanto “estes preços? Então e a crise?”. Entreolham-se, porventura defendendo o seu negócio, num “hum … crise neste segmento não se faz sentir”, que “as casas vão-se vendendo”. Mas que mais abaixo sim, a crise estalou, nas casas “entre os 150 mil e os 180 mil euros” é difícil a venda, "fora de Lisboa” há imensas casas disponíveis, e mesmo até ali “para a Penha de França e isso".

Sorrio, lembrando não propriamente nostálgico, a velha palavra de ordem que agora voltou: “os pobres que paguem a crise”.


4. Da Boca das Crianças ...





"Graças a Deus que em Maputo há menos spray." (Carolina, 7 anos)


5. Arte? Liberdade Individual?




Lisboa, cidade "grafitada". Talvez o hábito torne invisível o lixo visual aos seus habitantes. Mas a quem chega de fora ainda surpreende esta pandemia. Depois percebe-se que não é apenas o hábito, é mesmo o desencanto ideológico, para não lhe chamar desvario - é certo que as definições endógenas do que é "arte" tendem a desfalecer, pelo que "anything goes". Consulto a Agenda Cultural de Lisboa (profusa), simpática e útil publicação municipal. Reportagem sobre "A Arte Está na Rua", projecto a decorrer na Galeria de Arte Urbana, a tender para a institucionalização desta prática, donde a sua divulgação (bem, pode ser que com esta respeitabilidade se mate o bicho ...). É muito interessante ler o sociólogo Ricardo Campos, ali entrevistado a este respeito: "Hoje temos um discurso pictórico com mais de três décadas ... tornando-se numa linguagem paradigmática da pós-modernidade".

Há também uma dimensão ideológica, que se inscreve na democracia: as pessoas vivem no espaço público e sentem que têm direito de usufruir desse espaço." (p. 17 da edição impressa da Agenda Cultural Julho 2009).

É impossível rebater ideologicamente este argumento. Como diria o meu vizinho, acima citado, "Amu-te democracia". E não sou sociólogo.


6. As invasões francesas e o nacionalismo.




Pergunto se tem havido algo que “comemore” (que revisite) os dois séculos das invasões francesas, a última guerra internacional em território nacional. “Assim de repente” mandam-me ler “Ir Pró Maneta” de Vasco Pulido Valente (Alethea, 2007), narrativa da insurreição popular de 1808 contra Junot, a qual o autor considera o maior movimento social português da história, procurando-lhe o conteúdo sociológico. Obra interessante, para além do ar patrioteiro de alguma retórica do autor, o recorrente queixume do historiador face às “malevolências” sofridas às mãos dos enviados do império e dos sequazes de John Bull, o qual para alguns pode parecer a necessária subjectividade do autor. Mas não é.

Inscrição crucial nesta obra: "De resto, a sua quase completa ausência de identidade própria levou os hipotéticos “burgueses” de Portugal a sentir os distúrbios sociais de 1808 como um ataque contra si mesmos. O seu pânico foi o pânico da ordem estabelecida. E, por isso, em vez de, como em Espanha, aproveitarem o “levantamento do povo”, a que só faltavam chefes e objectivos, para captar a direcção política do país, fizeram a escolha oposta: uniram-se aos “grandes” para submeter os “pequenos”. No processo, fortaleceram as instituições tradicionais e a ideologia que as justificava. Em definitivo, a resistência a Junot reclamou-se mais da Coroa do que da nação. Pior ainda: a imagem arquétipa do colaboracionista (que tinha sido toda a gente, a começar nos bispos, na alta nobreza e na alta magistratura) depressa veio a coincidir com a de jacobino e a de pedreiro-livre, numa palavra, com a de “estrangeirado”. Quer dizer, se em França a nação se criara contra o "antigo regime" e, em Espanha, contra ele e o invasor, na crise portuguesa de 1807-1812 a nação surgiu em oposição ao francês (como era inevitável) mas sobretudo em oposição ao "afrancesado". Nestas condições, ficou desde o seu princípio identificada ao padre, ao frade e ao fidalgo, verdadeiros depositários de tudo o que ela possuía de singular (e, portanto, de sagrado) e últimos baluartes da sua defesa contra aqueles que de fora a procuravam vencer ou corromper, pelas armas ou pelas ideias. É inútil sublinhar a persistência desta visão na história futura do país. Em Portugal, o nacionalismo não teve como no resto da Europa um conteúdo laico e liberalizante (excepto nos breves episódios da Patuleia e da propaganda republicana entre 1890 e 1910). Pelo contrário, quase sempre não se distinguiu do ultramontanismo católico e das causas típicas da conservação." (p. 49-50)


7. Funcionalismo público.





Nas finanças, o funcionário que me atende, avantajada calvície de quarentão pálido e por barbear, está vestido com uma bem gráfica t-shirt dos Motorhead. Sorrio, não propriamente nostálgico, notando a mudanças dos costumes – literalmente falando.


8. O Pós-bloguismo.




Há uns meses, arrepiado com algo que lera no instrumento Jugular surpreendera-me num "O que faz um homem como o Miguel Vale de Almeida no meio daquela gente?". Já sei …


9. Liberdade?





Ascendo do Algarve a Lisboa em estrada habitada (e corrida) por centenas de motos. É o regresso da concentração de Faro, ritual anual. Que pobre sociedade, que pequenez da gente, em que as aspirações de liberdade individual se traduzem em vestes típicas e na utilização de um veículo motorizado.


10. Língua Portuguesa 1.



Numa Livraria Bertrand, usando o cartão da casa, 7,5% de desconto a cada 150 euros. Estes alcançados diz-me a menina livreira "aqui tem o seu voucher" de dez euros. "O quê?" indago eu, "o seu voucher" confirma ela, simpática, até cúmplice, tolerante com esta minha ignorância. "Quer dizer o meu vale?". Ela percebe, entricheira-se no "só estou a ler o que o computador diz", pois é mas "não compreendo esta mania de usar inglês quando há palavras portuguesas. E até mais curtas", completo com um sorriso. Não correspondido pela menina. Decerto adepta do Acordo Ortográfico.



11. Língua Portuguesa 2





Porquê? Há alguns anos encontrei esta tenda de quase-monos, ali na Avenida de Roma. Preços agradáveis, boa iniciativa. Julguei-a então quase periódica, sazonal de natal ou assim. Mas foi ficando. E firmou-se, milhares de livros portugueses a preços convidativos. Mas porquê "Roma Books"? Que mal há na palavra "livros"? Que precedente linguístico, lógico, de uso histórico, comercial ou quejando tem "books" sobre "livros"? Ainda se fosse "boocaria".

Em assim sendo tirem a tenda dali. Pois dá um ar miserável à Avenida, que já foi central. E comprem livros nas "livrarias".


12. Eleições Municipais.






Lembrar-se-ão os vizinhos lisboetas de há quantos anos está o Terreiro do Paço em obras?


13. Tribalismo.



Uma querida amiga, um pouco gauchiste, surpreende-se na praia: "Estás a ler um livro do Graça Moura?"







"...afinal é sempre a questão da identidade que se põe como tema que queira ter ideias originais por toda a gente que nunca as teve, a questão da identidade, agora, para mais, enriquecida com a questão da alteridade e os jogos de palavras respectivos entre as duas noções, que não são assim tão difíceis e estão ao alcance também de toda a gente, sobretudo dos frequentadores de simpósios e seminários internacionais e até das respectivas consortes, mesmo quando os joanetes ou a ciática as incomodam perfidamente, impedindo-as de fruir por inteiro dos programas sociais organizados para essas ocasiões." (Vasco Graça Moura, Naufrágio do Sepúlveda, Quetzal, 3ª edição, p. 21)


14. Homossexualidade ou Homossexualismo?





Uma sociedade aprisionada pela sexualidade, sem lhe dar descanso. E enredada nas demarcações que dela quer gerar – os termos da identidade assim delineados. Mas também uma sociedade da palavra pateta: assinalando os 40 anos da primeira alunagem humana Tiago Guerreiro da Silva do jornal i gasta meia página dedicada ao facto de que dois desses três astronautas (Armstrong e Aldrin) tiveram, cada um deles, um filho homossexual. Qual a relevância? Ainda no "acontece nas melhores famílias"? Ou apenas o papaguear idiota de um movimento político actual?


15. Pré-Globalização.






A doçaria algarvia: Potlatch de torta de alfarroba, de alfarroba-e-mel, de alfarroba-e-laranja. Contributos decisivos à civilização humana. Sou incapaz de entender o porquê da sua ausência constante a norte do Caldeirão.



16. A Direita em Portugal.


Jaime Nogueira Pinto no i, "O problema da direita"" (14 de Julho de 2009, nº 59) remata: "Tem sido assim, e assim será, enquanto não houver uma força política, existente ou nova, que adopte esses valores e princípios identitários da direita. Que, depois do fim do comunismo e da conversão dos socialistas ao mercado, já não pode ser o liberalismo económico. A direita ideológica tem a ver com a ideia de valores de orientação permanente, à volta da nação, da religião, da família, de uma certa ordem natural, que admite mudanças, mas rejeita utopias e sobretudo a absolutização do relativo."


Algo que poderia ser cristalino, mesmo para os que entendemos essa “orientação permanente” como contingências históricas, opções sociais, como tal não absolutas sem que por isso sejam meros despiciendos relativos. Serão absolutos relativos ... E algo muito longe do patois liberaleiro, que grassou na “nova direita”, auto-denominada “inteligente” – cujo exemplo-mor in-blog é parte do histriónico Blasfémias, que tanto sucesso colheu, denotando o vácuo na tal “direita”, ou seja, o “problema da direita”. Problema dos locutores, grão-problema nos múltiplos leitores (clicadores).



17. Mia Couto em Tavira.





Tavira, meados de Julho, segunda-feira, 15.30, praias cheias. Na biblioteca municipal (Álvaro de Campos) um auditório transbordante, mais de 150 pessoas entusiasmadas para ouvir Mia Couto, ali a apresentar – com o seu encanto habitual – o “Jesusalém”. Nosso espanto pela multidão, ali e então. Pelo que percebemos coisa da actividade de um Clube de Leitura local. Para além do Mia, claro.



18. O Ministro e o Acordo Ortográfico.


Só agora leio. O ministro da Cultura António Pinto Ribeiro no Jornal de Letras (nº 1010, 17 de Junho de 2009) ainda julga necessário defender o Acordo Ortográfico. Apesar de nos informar que este foi aprovado pelo governo, pelo parlamento e pelo presidente da república em 1990. Que em 1998 foram confirmadas as regras da sua entrada pelas mesmas instituições. E que agora "houve uma terceira ratificação" pelo que "A legitimidade está mais do que assegurada". Não percebe - Pinto Ribeiro não é homem de perceber política, demonstra-o à exaustão o seu auto-elogio no Público de 25 de Julho (com direito a primeira página) onde nos afirma que foi melhor do que a sua antecessora no mesmo governo, um ridículo político total –, não percebe dizia eu, que se assim é, se a legitimidade não está em causa, então dezoito anos depois, ele não deveria precisar de discutir o assunto. Ou seja, não percebe que a questão não é meramente formal, institucional.


Depois diz um chorrilho de asneiras, inaceitáveis para quem se arroga ao direito de ser ministro: “Ninguém é obrigado a escrever como não quiser” … isto é coisa que se diga? Pois nem é comentável. Patetice pura.



Mais, sobre os que se opõem ao Acordo Ortográfico afirma: “Compreendo que as pessoas que lideraram a petição [contra o Acordo] tenham essa petição e que estejam grudadas no purismo. É como se não quisessem que as respectivas mulheres mudem de cortem de cabelo e os maridos deixem crescer ou cortem a barba.” Não lhe ocorre (o que não é surpreendente nesta sua incapacidade de se entender como agente político) nem tampouco aos pacatos jornalistas do JL (Maria Leonor Nunes, Luís Ricardo Duarte) que esta é uma afirmação inadmissível num ministro. Pinto Ribeiro não é comentador de programa jocoso-televisivo, não é bloguista Simplex ou Jamais . É um ministro, ainda por cima da cultura, pode destroçar os argumentos dos que se lhe opõem (mesmo que em questões tão velhas que já resolvidas, como - contraditoriamente - quer afirmar) mas não tem o direito à brejeirice, à gozação inculta. Nesta simples atoarda demonstrando a sua incompreensão dos termos daqueles que se lhe opõem - na prática agarrado às analfabetas noções de que a escrita não influencia a fala (eco de concepções iletradas e isentas de educação escolar grafada) e à de que se sustenta na ideia de que a escrita é uma convenção, esquecendo (ignorando?) que a fala também o é. Mas convenções praticadas ...


Um tonto - como em Maputo tanto demonstrou.

19. Exemplo de Exposição.


No Instituto de Ciências Sociais uma pequena e bela exposição, exemplo de montagem e de comunicação. Sobre a revista anarquista "Renovação" (1925-26), associando-a ao pensamento utópico de António Tomás Pinto Quartin. Vale bem a pena visitar, pelo objecto-exposição em si, pelo carinhoso pensamento (hoje poder-se-á dizer isso do anarquismo) ali visitável.

20. A revista Ler é do melhor que há em Portugal. Não chega a Maputo. Por isso foi aboletar-me em casa paterna, décadas dela por lá, e percorrer o último ano e tal, e até para trás - até que alguém me avisasse: "passas o tempo a ler sobre livros em vez de leres livros...".

Terá sido por isso, pelo excesso. Ou por ter regressado às velhas (1993, com entrevista a Mario Vargas Llosa) que me ocorreu algo, um desconforto. Há coisas muito boas hoje, o director, a sapiência em sorriso leve do Onésimo, algumas entrevistas (fabulosa a de Miguel Esteves Cardoso, a lembrar-me de uma Lisboa em que o "Miguel" era o MEC e ainda não Sousa Tavares; horrível a de Margarida Rebelo Pinto, onde o entrevistador parecia uma abadessa de dedo em riste para uma noviça afogueada com o senhor cura), Filipe Nunes Vicente que deve ter o teclado mais interessante de todos os que juntaram o papel publicado aos seus blogs. E não só. Mas a Ler tem agora um tom de humor (bloguístico?) que é cansativo, de de-monstrável que é. Uma marca deste momento se calhar. Mas que cansa. Mesmo.

Ainda assim, uma pena não ser distribuída aqui.


21. Tavira





[Fotografia encontrada aqui]

Há décadas que lá não ia. Uma surpresa, ainda que fosse avisado. Um Algarve que resistiu. Cidade bonita, preservada, agradável para habitantes e visitantes, com algo de seu. "Nunca mais digo mal do Macário Correia" disse eu, em coro. "Ai é uma pena, ele vai para Faro", lamentava-se a senhora, já de idade, ali na farmácia.

O que não seria do Algarve se tivessemos tido mais gente como ele. Em vez desses patifes.

22. Coimbra Capital do Saber?




As placas na autoestrada anunciam Coimbra – Capital do Saber. Cruzo-as ao volante e sorrio ao ridículo da vetusta, medieval, proclamação. Dois dias depois sorrio ainda mais, ali ao lado de Tavira é Santa Luzia anunciada como a Capital do Polvo. O ridículo coimbrão…



[fotografia encontrada aqui]



23. O Estado e o falo



[Artur Corte-Real (coord.), Mosteiro de Santa Clara de Coimbra. Do Convento à Ruína, da Ruína à Contemporaneidade, IGESPAR, 2008]


Nos últimos 18 anos passei em Coimbra apenas um bocado de tarde, ao doutoramento de um amigo. Nem me lembrava do bonito da cidade (agora a minorar, às mãos do prestigiado Gonçalo Byrne, pelo que vejo)

Entre outros poisos visito este convento de Santa Clara, um exemplo de afã patrimonial. Certo que a exposição é frágil (lettering pavoroso, informação parca e até errónea), dando um ar paroquial contrastante com o conjunto arquitectónico.

Paróquia que se sublinha à entrada, recursos humanos aldeões. Na compra dos bilhetes (as crianças pagam, um desvario) uma televisão transmite uma sequência de imagens do convento e dos achados arqueológicos. O "recepcionista" (antes dito "guarda"), bem fardado, olho nestes dois casais e suas pequenas filhas e um outro na perspectiva de avantajada gorjeta, logo se transforma em "guia turístico", legendando e comentando as fotografias exibidas.

À passagem do falo de pedra ocorre-lhe, alvar, o "e isto é o que elas usavam, ha ha ... ha ha". Vamos virando costas - certo que ele nos ressurgirá lá em baixo, no convento, lesto em busca dos euritos - e eu sigo um pouco hesitante, será esta a idade exacta para responder substantivamente às questões assim brotadas?: "O que era aquilo?", "usavam para quê?".

Contemporaneidade? A possível no Estado.


24. Exposição África




A colecção de arte africana de José de Guimarães. Espantosa. Imperdível. Mais do que tudo, invejável. Um catálogo com excelentes textos (Raquel Henriques da Silva, Kosme de Barañano e Rui Mateus Pereira). Fantástico. E um etc. de adjectivos.


24. Vitruvius Mozambicanus no Centro Cultural de Belém (aka Museu Colecção Berardo)

Pancho Miranda Guedes, o arquitecto lenda do Lourenço Marques de então. Sumptuosa exposição no CCB.


No fim fica-me a dúvida, qual o impacto de Miranda Guedes depois de transplantado daqui. Saíu ainda novo, mas o grosso da obra mostrada, arquitectónica e pintura é dos tempos moçambicanos. E a pintura a eles regressa. Gostaria de ter voltado, de a ter revisto. Para a fruir, mas também para tentar responder a esta inquietação. Feneceu, lá fora?

Outra imperdível. Duas exposições que justificam (teriam justificado, caso necessário fosse) a viagem a Lisboa.


25. Política Portuguesa: a Esquerda e a Direita.





A meio da tarde sigo no túnel do Marquês pela faixa da direita a 50 km, velocidade máxima. Na esquerda, um pouco à minha frente, alguém segue à mesma velocidade. Atrás dele chega um outro, que assim se posta a meu lado, apitando quase frenético. Saímos do túnel ascendendo a Fontes Pereira de Melo. Somos os últimos a passar o semáforo verde no início da avenida e assim deixamos de ter gente imediatamente atrás. O nervoso ultrapassa pela direita, ziguezagueando à minha frente, atravessa-se à frente do seu “opositor” e sai do carro aos gritos deixando a mulher sentada. Eu paro, apesar da família ali. Ele vocifera e gesticula. O outro condutor olha para mim e meneamos a cabeça, concordando num “não vale a pena ir-lhe às trombas”. Sigo.

No dia seguinte cruzo em sul-norte a Ponte Vermelha. Sigo na faixa do centro, a todo-alcatroada, à velocidade máxima. Transferindo-se da direita um camião cola-se à minha traseira que logo enche com seus enormes máximos e depois com estridente buzina. Depois ultrapassa-me em continuada buzinaria, mostrando-se “Veículo Longo” de empresa de transportes com nome de atum de conserva, e inflecte para a minha frente, reduzindo abruptamente a sua marcha enquanto gesticula fora da janela.

Não me restam dúvidas, não percebo a topologia lusa, isso da esquerda e da direita. (ainda bem que há os pedagogos in-blog e "lá fora", que seria de nós, ignorantes, sem eles …)


26. A Esquerda em Portugal.





Esquerdista militante, vibrante de argumentação e invectivas, sobre coisas "actuais" e "locais", coisas de âncora ideológica, o antropólogo encartado interrompe o tom e, a propósito de uma qualquer-coisa, concede "Pois é, em Moçambique ainda há sociedades matrilineares". Sorrio e, porco reaccionário, resmungo "surpreende-me esse "ainda"…".

Não me restam dúvidas, não percebo a topologia lusa.


27. Funcionalismo Público 2.



Museu de Arte Antiga, para ver a exposição Portugal e o Mundo nos Séculos XVI e XVII - belas peças mas mais do mesmo, nem uma década passou das grandes comemorações e regressa o centramento nos Descobrimentos. Com uma falta de informação, que permite o "achatamento" da história, uma desproblematização multiculturalista à vista - porventura a leitura do catálogo dê outras pistas, mas trata-se de VER uma exposição. Atente-se na ideológica planura da secção "Brasil" da mostra.


Mas sucesso de público, uma fila para os bilhetes em tarde de semana. Está na hora das visitas guiadas, um dos visitantes pergunta à funcionária (de putativo vínculo estatal) se ainda se pode integrar nas ditas visitas. Ela, de imediato, grita para a outra ala do átrio da entrada: “ó não-sei-quantas ainda há lugar nas visitas guiadas”. A colega responde gritando, sobre todas as nossas cabeças, “Hââânnn???!”. Sorrio, liberal: “é o Estado…”, ou melhor, “é o estado do Estado”.


28. A Vida.





The Night of the Iguana : Hannah Jelkes (Deborah Kerr) partiu, levando a cruz de Shannon. Maxine (Ava Gardner) diz a este (Richard Burton): "I’ll get you back up, baby. I’ll always get you back up".

26/07/09

Bróculo em Brasa, um blog amigo.

03/07/09

Manuel Pinho

Nunca tive qualquer simpatia pelo ministro da West Coast. Mas ao vê-lo ontem, obviamente passado com este filho da puta, amigo dos Kim-Il-Sungs e dos Mugabes fico mesmo é enjoado com a retórica hipócrita que o penaliza.

Um par de cornos, bem merecidos, para Bernardino Soares e toda a escumalha mugabesca que o rodeia (Saddam era um democrata, não esquecer, apesar de ter dizimado os próprios comunistas iraquianos) - um par de cornos mais que merecidos.

Coisas de Portugal

Coisas de Portugal: estreio-me a ver Corredor do Poder na Televisão Pública, o grau menos que zero da política. Bandarilheiros, nada mais. Quem paga? E, acima de tudo, quem vê?

27/06/09

Kuxa Kanema, nova revista




Kuxa Kanema, o primeiro número da nova revista do Instituto Nacional de Cinema, que tem como director Djalma Lourenço e director-adjunto Pedro Pimenta - o homem do Dockanema - e uma tiragem de 500 exemplares. Este número ainda muito institucional, debruçado sobre questões internas do Instituto mas já com um dossier sobre a recente "I Mostra do Cinema e Audiovisual da CPLP", que ocorreu em Maputo a semana passada. E também com uma pequena entrevista com Gabriel Mondlane, cineasta moçambicano.

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Correntes

O Entre as Brumas da Memória introduziu o ma-schamba na corrente de blogs actual, o Prémio Lemniscata. Muito agradeço a simpatia.


Que prémio é este? Complicado!


"O selo deste prémio foi criado a pensar nos blogues que demonstram talento, seja nas artes, nas letras, nas ciências, na poesia ou em qualquer outra área e que, com isso, enriquecem a blogosfera e a vida dos seus leitores.»


Sobre o significado de LEMNISCATA: «curva geométrica com a forma semelhante à de um 8; lugar geométrico dos pontos tais que o produto das distâncias a dois pontos fixos é constante».


Lemniscato: ornado de fitas Do grego Lemniskos, do latim, Lemniscu: fita que pendia das coroas de louro destinadas aos vencedores. (In Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora)


O símbolo do infinito é um 8 deitado, em tudo semelhante a esta fita, que não tem interior nem exterior, tal como no anel de Möbius, que se percorre infinitamente."


E para continuar a corrente há que chamar a atenção para outros sete blogs que lemnisquem, ou seja, de que esteja a gostar. Aqui vão, sem ordem:


1. Mãos de Moçambique
2. Modaskavalu
3. Arte em Movimento
4. Mbila
5. Vinte e Cinco Centímetros de Neve
6. Vidro Duplo
7. Mar Salgado

Férias de Portugal


Medina Carreira, entrevistado por Mário Crespo, 26 de Junho, na SicNotícias (gravação ainda indisponível na internet).
Férias de Portugal.

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26/06/09

"A Bola", de Orlando Mesquita



Já um clássico do cinema moçambicano.

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24/06/09

Imputação a Agualusa

Aqui se ecoa a acusação a José Eduardo Agualusa de ter cometido plágio no seu "Estação das Chuvas". Fui ver e ler. E parece-me muito forçada a tal acusação. Plágio não é isto, caramba! Goste-se ou não da escrita de alguém.



"One of the more plausible explanations for why, despite a century of democratic movements and uprisings, Western-type democracy has failed to take root in the Middle East is that Arab nationalists have wanted to pick and choose from the Western cornucopia, taking over science and technology and/or educational systems and/or institutions of government without being ready to absorb their philosophical underpinnings as well, the false gods of rationalism, scepticism, and materialism."

[J.M. Coetzee, "Nadine Gordimer", Inner Workings. Literary Essays 2000-2005, Harvill Secker, 2007, 248-249]

23/06/09

Vinte e Cinco Anos de "Charrua"

Alguém me diz que hoje mesmo, 23 de Junho, se cumprem 25 anos do lançamento do primeiro número da revista "Charrua", publicada no seio da Associação de Escritores Moçambicanos. Uma "Charrua" que foi momento crucial da emergência de uma literatura moçambicana, então englobando textos de nomes que foram ficando, movimento de (jovem) geração que foi (em torno de um núcleo de fundadores - Idasse, White, Muteia, Bucuane, Chissano, Khosa, Vimaró). E polvilhada com textos do que poderá ser visto como um panteão inspirador - denotando a época - e de alguns veteranos.

Abaixo fica a reprodução das capas dos exemplares que tenho [se alguém tiver o nº 2 e me deixar fotocopiar ...]. Sobre o conteúdo haverá quem fale. Sobre uma reedição (talvez fac-simile) haverá, com toda a certeza, quem tenha a legitimidade para a aventar.

[Nº 1, Junho 1984. Entrevista a Rui Nogar por Tomás Vimaró; poemas de Pessoa, Césaire, Dante, Char, Sartre, Brecht; publicação de "Godido" de João Dias; textos de Khosa, Mikas Dunga, António Magaia; poemas de Bucuane, Muteia, White; ilustrações de Ídasse (e Naguib?)]


[Nº 3, Outubro de 1984; Entrevista a Pepetela por Tomás Vimaró; textos de Khosa, Roberto Amado, Aníbal Aleluia, Panguana, Khambira Khambiray (Aldino Muianga?), Tomás Vimaró, Nathan Erúbi, Mikas Dunga (Pedro Chissano?); poemas de Adamogy, Pinto de Abreu, Fernando Pablo, Fernando Manuel, Juvenal Bucuane, Alvaro do Ó, Hilário Matusse, Armando Artur, Sibone]



[Nº 4, Dezembro de 1984; poema de Alejandro Diaz; textos de Khosa, Gregório Marcelino Malôa (sobre Orlando Mendes), White (sobre Craveirinha), Vimaró, Aníbal Aleluia, Mikas Dunga, Khambira Khambirai, Muteia; ilustração de Ídasse; poesia de António Tomé, Sarimate, Rufino Roque, Armando Artur, Pinto de Abreu, Guilherme Afonso, Guevene, Jójó Muhau, Sibone, Cândido Mondlane]





[Nº 5/6, Abril/Junho 1985; Entrevista a Luís Carlos Patraquim por Vimaró; poema de Corsino Fortes; textos de Manuel Ferreira (excerto, sobre a Charrua, publicado no JL de Portugal), de Vimaró, Maria Amélia Russo (sobre Rui Knopfli), Juvenal Bucuane, Marcelo Panguana, Ídasse, Sulemane Cassamo, Castigo Zita, Khosa; Ilustrações de Ídasse, Míguel César; poemas de Edmundo Manhiça, Armando Artur, Job Matola, António Tomé, Filimone Meigos, Guilherme Afonso, M´to Tóva, José Maria (Júnior), Cândido Mondlane, Sibone, Mukeswane (seria o Bento Carlos?), Bucuane, Luís Carlos Patraquim, Yussuf Ebrahim, Nataniel Ngomane, Angélica Muvumbe, White, Rufino Roque, Muteia, Dobie Ralph]



[Nº 7, Agosto 1985; Poema de Corsino Fortes; Entrevista a Marcelino Alves por Vimaró; textos de Pedro Chissano, Orlando Mendes, Juvenal Bucuane, José Cardoso, White, Aníbal Aleluia, Fátima Mendonça, Muteia, Khambira Khambiray, Vimaró, Maria Jorge, Nelson Saúte; poemas de Ilídio Chamusso, Nelson Saúte, Clotilde Silva, Belocéu, Mwana Mutipo, Guevane, António Tomé, Fernando Manuel, Hilário Matusse, Bucuane, Ngomane, Guilherme Afonso, Armando Artur, Jójó Muhau, Sarimate K.M., Ripanga Raku Xeka, Rufino Roque, Lonamu-Lehia, Filimone Meigos; Ilustração de Mandhate]




[Nº 8, Dezembro 1986; textos de Pedro Chissano, Isménia Sacramento, Nilson Luiz May (sobre Luandino Vieira), Panguana (sobre Bento Sitoe), Clementino Vaquina, Aníbal Aleluia, Orlando Mendes, Khosa, Vimaró; poemas de Armando Artur, Bucuane, Muteia, Filimone Meigos, Guilherme Afonso, Nelson Saúte; ilustração de Ídasse]


E do primeiro número transcrevo um poema que, hoje, se confirma anúncio:

Da Ínfima Gôta
A tarde se destende toda nua
Unicamente no pó ou nas coisas que me bastem
Então, eu me afasto despido e tão evidente
Como a límpida clareza do grito.
E sou de repente
A ave apedrejada
A ave ferida
Com as asas largas
Largas e compridas
Fugindo célere ao arremesso

(Eduardo White)


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22/06/09



Ela (enquanto ele lhe lê): "Pai, o livro cheira a mil novecentos e qualquer coisa ..."
(e ele "?!", a pensar "já?!", e ela "é velho o livro, vê, o papel cheira a qualquer coisa ... estranha" e ele a deixar-se, "?!" estupefacto com este já.)
[Goscinny, Uderzo, Asterix. La Zizanie, Dargaud, 1967]

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Blogs Vizinhos

Cartas à Moda Antiga, o blog do jornalista (e também colega) Policarpo Mapengo.

Aprendendo Antropologia, o blog do futuro colega Dilman Mutisse.

21/06/09



[Uderzo, Goscinny, Asterix, o Gaulês, Bertrand/Ibis, 1967, p. 31]

Revistas Moçambique - Documentário Trimestral

Mão amiga lembra-nos da existência da colecção digitalizada de Moçambique - Documentário Trimestral (revistas entre 1935-1940). A consultar.

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20/06/09

Gripe Estatal


"Hã, também eu custei a crer ... Mas depois tive de me convencer. Acredite em mim, nós nem suspeitamos de quão grande é o génio do chefe que nos guia... Uma ideia formidável para tomar o pulso do país ... A gripe estatal! Não é maravilhoso? A gripe que só ataca os pessimistas, os incrédulos, os opositores, os inimigos da pátria escondidos em todos os cantos ... E os outros, os cidadãos dedicados, os patriotas, os funcionários conscienciosos, todos imunes."
[Dino Buzzati, "A Epidemia", em A Derrocada de Baliverna, Cavalo de Ferro, 2008, p. 190, tradução de Margarida Periquito]

17/06/09

Ricardo Rangel, por Alexandra Prado Coelho

Um texto sobre Ricardo Rangel, publicado no jornal Público.
"Ricardo Rangel, o fotógrafo que ofereceu um espelho aos moçambicanos"

Por Alexandra Prado Coelho

1924-2009

Os amigos disseram-lhe adeus ao som de Charlie Parker, como ele teria gostado. O jazz era, a seguir à fotografia, a grande paixão de Ricardo Rangel, o decano dos fotojornalistas moçambicanos, que morreu aos 85 anos. Desapareceu o homem com "um clique mágico".
Um dia, numa conversa de café, o fotojornalista moçambicano Ricardo Rangel ouviu falar de um miúdo negro que era pastor e trabalhava para um criador de gado português que, como castigo por ele ter perdido um animal, o tinha marcado na testa com o mesmo ferro em brasa que usava para marcar o gado. Rangel pegou no carro e, juntamente com Raul Alves Calane da Silva, companheiro de redacção, pôs-se a caminho para a zona de Changalane, onde lhe tinham dito que o miúdo vivia. Procurou-o durante dois dias até finalmente o encontrar. Chamavam-lhe "o oito", por causa dessa marca, em forma de oito deitado. Rangel fotografou-o - os olhos de uma tristeza infinita, e a marca do patrão gravada na testa. "O indivíduo [o português] queria dar-nos um tiro", recorda Calane da Silva, ao telefone com o P2 a partir de Maputo, a capital moçambicana, poucas horas depois do funeral do seu grande amigo e companheiro de aventuras desse tempo em que perseguiam as notícias "até às últimas consequências, mesmo com risco de vida".
Ricardo Rangel morreu no dia 11, em Maputo, aos 85 anos, na sequência de problemas cardíacos, e teve, na segunda-feira, um funeral com honras de Estado. A última despedida dos amigos foi como ele tinha pedido: "ao som de Charlie Parker", conta Calane da Silva. "O Ricardo tinha um clique mágico", continua o amigo. "Estava sempre com os olhos atentíssimos e aliava o fotojornalismo à arte fotográfica." Gostava de sair para a rua e fotografar, mesmo sabendo que no Moçambique pré-independência a censura não iria deixar passar a grande maioria das imagens. "Ele guardava-as porque tinha o sentido da História. Ia-as recolhendo, sabendo que um dia seriam a imagem histórica do que aconteceu."Ia registando um país.
E fazia-o "com uma consciência política muito mais marcada que o resto do pessoal", sublinha ao P2 Kok Nam, outro grande nome do fotojornalismo moçambicano e companheiro de trabalho de Rangel em várias publicações. "Ele já era anticolonial nos anos 40. Teve sempre muito a noção da exploração do homem pelo homem."
A Rua Araújo
Filho de um negociante grego, Ricardo Rangel, que nasceu em 1924 na então Lourenço Marques (hoje Maputo), tinha uma mistura de sangue europeu, africano e chinês que fez dele o primeiro foto-repórter não branco a trabalhar para a imprensa moçambicana. Em 1941 foi estagiar para o laboratório de fotografia de Otílio Vasconcelos, passando depois pelo estúdio fotográfico Focus, antes de, em 1952, chegar finalmente aos jornais, tornando-se "foto-repórter" do Notícias da Tarde, onde ficou até em 1956 se mudar para o Notícias. "A fotografia sempre foi para mim uma coisa mágica e comecei no laboratório, a varrer o laboratório. Andei anos nisso", confidenciou a Luís Carlos Patraquim, numa entrevista publicada em 1991 no PÚBLICO. "Só muito mais tarde me atrevi a pegar num caixote e, mesmo assim, quase às escondidas."Era depois de terminar o trabalho e de sair da redacção que, com a "Canon a tiracolo e uma sede infinita de estar com a sua gente, rumava à grande catedral dos sacrifícios ingénuos", a Rua Araújo, na Baixa de Lourenço Marques, relata Patraquim. "No começo não sabia porque tirava certas fotos", confessa-lhe Rangel. "As pessoas diziam-me: 'Tu não és preto, porque é que andas a tirar fotografias a pretos?' Comecei a tomar consciência quando as queria publicar e a censura cortava. Nada de mendigo, o gajo todo roto a pedir, o polícia a algemar o 'indígena'. Tirei muitas fotos que sabia que nunca seriam publicadas. E guardei sempre os negativos."
Mais tarde as fotos da Rua Araújo transformar-se-iam num livro, O Pão Nosso de Cada Noite, e eternizariam as prostitutas de calções curtos e penteados elaborados que nos anos 60 e 70 trabalhavam nos bares Texas ou Casablanca. "A Rua Araújo era impublicável", conta Rangel nessa entrevista. "Muitas das minhas chapas ficaram nas redacções por onde andei, mas o que, ao longo da década de 60, fui fixando da minha rua, esse é material que me pertence."Entre as prostitutas, os marinheiros e os noctívagos da Rua Araújo misturavam-se muitos pides, recorda Calane da Silva. E durante anos Rangel fotografou-os. Depois do 25 de Abril, Calane escreveu uma grande reportagem sobre eles, e publicaram as imagens. "Pusemos os homens com os nomes em baixo e tudo."
A paixão pelo jazz.
Entre os anos 60 e 64, Rangel foi chefe da secção de fotografia do recém-fundado A Tribuna. E, em 1970, com outros jornalistas, entre os quais o colega fotojornalista Kok Nam, lançou-se na aventura da revista Tempo, a primeira a cores em Moçambique. Kok Nam lembra-se da última página chamada Objectiva, "que seria como que o editorial dos repórteres fotográficos", e do peso que a fotografia conquistou na altura. Mas lembra-se também como na Tribuna Rangel "fez grandes reportagens nos subúrbios, quando ninguém pegava nos subúrbios", e como, apesar de "não ser um fotógrafo oficial", fotografou três chefes de Estado depois da independência. "Viveu tudo, deixou uma grande obra, deixou a história de Moçambique registada."Foi nos anos 60 que José Luís Cabaço começou a ter um contacto mais intenso com ele. "Partilhávamos visões sobre o colonialismo e pertencíamos ao mesmo grupo", conta ao P2. Mas foi depois da independência, na época em que Cabaço se tornou ministro da Informação, que "a amizade se consolidou", e quando decidiu criar "o Domingo [em 1981], que era um jornal muito gráfico, muito ligado à vida quotidiana", o ministro achou que "a pessoa óbvia" para o dirigir era Rangel. "Era a primeira vez que um fotógrafo assumia a direcção de um jornal", sublinha. Mas Rangel era muito mais do que um grande fotógrafo, afirma Cabaço. "Deu-nos uma grande lição de alegria de viver, amor pela vida e pelas pessoas e grande indignação com as injustiças." Amava a fotografia e amava profundamente o jazz. "O jazz tinha raízes na afirmação africana, na ideia do negro como sujeito musical, e é um elemento fundamental para compreender as várias dimensões através das quais Rangel vivia o seu nacionalismo", explica o antigo ministro. Até à chegada de Rangel, "a fotografia em Moçambique era a do colono, e o colonizado aparecia como complemento". Ele "traz o colonizado para sujeito do processo de registo, na sua dimensão de dominado e explorado", e assim torna-se "um construtor privilegiado do imaginário anticolonial". Era nas imagens dele que o novo país se podia finalmente ver ao espelho.
E esse espelho mostrava as injustiças, mas mostrava também outras realidades. Calane da Silva lembra-se de uma imagem que Rangel mostrou na primeira exposição que fez em Moçambique, em 1957, e que mais tarde lhe ofereceu: um casal português, brancos de meia idade, transportando cimento à cabeça, enquanto constroem a sua casa, lado a lado com dois operários moçambicanos. Uma imagem a dizer que "os colonos também podem ser gente como nós". Quando, em 1971, Rangel foi enviado a Portugal para cobrir o primeiro festival de jazz de Cascais, voltou também cheio de fotografias que mostravam as peixeiras portuguesas, e as mulheres de trouxas à cabeça, para mostrar que afinal as diferenças entre um mundo e o outro não eram assim tão grandes. "Era também uma pedagogia", explica Calane da Silva.
Ricardo Rangel gostava de ensinar, e várias gerações de fotógrafos moçambicanos aprenderam com ele, primeiro nos jornais, depois, a partir de 1983, no Centro de Documentação e Formação Fotográfica de Maputo, que dirigia. Sérgio Santimano, hoje a trabalhar na Suécia, foi um dos que estagiaram com ele no Domingo. E não esquece o muito que aprendeu. Não esquece, por exemplo, o dia em que, encarregue de fazer fotos para um trabalho sobre o amor, ouviu as críticas de Rangel. "'Sérgio', disse ele, 'isto não é amor. Sabes o que é fome?', perguntou. E de repente meteu a fotografia na boca e começou a comê-la. 'Sabes o que é dançar?' E, sem eu ter tempo de reagir, agarrou-me e começou a dançar. Percebi o que ele queria dizer: a fotografia não pode ser meios-termos, meio gás." Mais tarde, já depois de viver na Suécia, encontrava-se às vezes com Rangel e falava-lhe nos seus projectos fotográficos. "Ele brincava com isso. 'Tu tens sempre projectos', dizia. 'Eu nunca tive nenhum projecto. Acho que um dia também vou ter que arranjar um projecto.'
"Santimano e todos os outros que aprenderam com ele "partilham a mesma visão humanista", escreve Simon Njami, director da bienal de fotografia de Bamako, no Mali, num texto para a exposição Iluminando Vidas, que esteve na Culturgest Porto em 2004. Rangel "ensinou-lhes a importância de uma interpretação com pudor e respeito pelo semelhante, como se o tema da fotografia fosse uma maneira de criar incessantemente um auto-retrato".

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15/06/09

Brel e os bonbons

Abaixo está um "youtubismo" com o Grande Brel, nos seus "bonbons". Vendo-o, quarenta anos depois, pergunto-me se hoje Brel poderia escrever, cantar e mimar assim. Ou seja, poderia - ainda para mais Brel. Mas o que não lhe caíria em cima, dos agentes do correctismo.

Reintegração Social dos Espíritos


[Província de Maputo, 2005]


Uma fotografia a convocar bem mais do que um simples post(al).

13/06/09

Hoje é sábado à noite

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Um pouco de música

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O Estado e o 10 de Junho

O 10 de Junho que passou deixou-me, português imigrado, uma dúvida. São os agentes do Estado no exterior desprovidos de memória institucional - e assim incompetentes -, ou são desprovidos da mais rudimentar das éticas - e assim incompetentes?

Não é um quizz. É um passaporte. E uma enorme praga, carregada de menosprezo pelas pessoas.
Não pelo país. Ainda que este seja elas.
No cabeçalho, a seguir à velha epígrafe do Nassar, está o endereço simultâneo do ma-schamba: ma-schamba no blogspot. Aqui tem sido quase impossível vir, devido ao servidor - pelo que sei os parcos leitores vizinhos não conseguem chegar a este ma-schamba wordpress. Talvez, os interessados, possam gravar esse endereço onde colocarei posts mais facilmente - e comentários, aqui de repente tornados impossíveis.

Refiro-me aos interessados vizinhos, parcos presumo, mas não às estruturas culturais ("cuidado, que ele é da ... e amigo de ...") que acham que um branco português não tem direito a ... e deveria partir para o oriente pagão onde lhe cortariam a cabeça. As estruturas culturais e os que ("cuidado, que ele é da ... e amigo de ...") - o ma-schamba é só um diário. Assim desdiarizado da vizinhança.

Berço. Nada mais ...

Por isso .... cada vez mais parcos vizinhos. Por isso ... e pela vida, também, sacana.