Crescimento e Educação
João Miranda acaba de colocar um texto no Blasfémias utilizando Moçambique como exemplo de uma tese.
1. Há alguns dias que tenho grandes dificuldades em comentar no sistema blogspot, recebo negativas mal-criadas deste teor: "Open proxy detected. Comment posting disabled. If you think you have received this message in error, please contact the webmaster." Como o Blasfémias tem um ritmo trepidante de colocações julgo que quando conseguir meter algo por lá o texto em causa já estará no limbo do pé de ecrã. Daí que o aborde aqui. Reza assim:
"Moçambique tem das mais baixas taxas de escolaridade do mundo.
Moçambique tem das mais altas taxas de crescimento económico do mundo (na casa dos 10% ao longo dos últimos anos).
Conclusão: os países não ficam ricos porque apostam na educação. Os países apostam na educação quando ficam ricos."
2. Para mim JM é um caso complicado na blogosfera portuguesa. Lendo-o há meses, desde os tempos do seu blog individual, confesso que ainda não o percebi. Bloguista talentoso é-o, verve e acutilância, síntese e provocação. Mas é a sério ou é a brincar? A sociobiologia light, os simplismos sobre o liberalismo, as analogias históricas, tudo isto é assim mesmo ou são só carolos para "abrir cabeças", pedradas na pasmaceira? Confesso-me confuso, medíocre intérprete. Mas custa-me crer num projecto a tão longo prazo de ironia grosseira [leia-se "grossa"] de aparência intelectual (até porque me parece pouco eficaz quanto a "abrir cabeças"). Cada vez mais me convenço em que tudo aquilo é a sério. Se calhar este meu pendor para uma versão "séria" está influenciada pelo actual (e sério) relativo mal-estar de alguns membros do Blasfémias, o qual espero seja em breve ultrapassado. Que aquele postar contínuo já faz parte da blogoespreitadela quotidiana.
3. Isto não é uma questão pessoal, eu leio JM porque gosto de o ler. Se não gostasse ia à minha vida, lia outras coisas, não se justificaria andar para aqui a escrever sobre tudo isto.
Mas tem a ver com o que acho disto tudo, do bloguismo. Há bloguistas que se levam a sério, alguns exageradamente a sério. Outros surgem ligeiros, outros irónicos e, o supra-sumo, auto-irónicos. Há ainda outros insuportavelmente ligeiros.
Cá em casa mora um que tem dias de insuportável auto-convencimento, preocupado com os males do mundo (mais do seu país) e convicto de que a sua palavra vale de algo, heurístico curandeiro. Soberba diria, se católico. Mera estupidez diz, quando mais bem-dormido. Mas entendendo eu um blog como um diário também lhe aceito as variações do humor, e que cada um tem o direito de se achar importante ou desimportante, útil ou inútil, clarividente ou tralalá. E de mudar de ideias ao longo do(s) dia(s).
4. Regresso a JM, porque ilustre blogard. E ao seu post de hoje. Da síntese sobre Moçambique retira uma tese (oops, dialéctica, os alemães, os alemães...): o investimento na educação é exógeno ao crescimento económico.
Ora veja-se, a síntese não vale um caracol. É errada nos seus termos. Absolutos. E relativos (não, não é o temido relativismo, é contextualização, história - e atenção, contextualizar com a história não é historicismo).
[Agora vou à clínica com a miúda, lá para a madrugada continuarei]
[Lamento, fica para logo de manhã]
1. Há alguns dias que tenho grandes dificuldades em comentar no sistema blogspot, recebo negativas mal-criadas deste teor: "Open proxy detected. Comment posting disabled. If you think you have received this message in error, please contact the webmaster." Como o Blasfémias tem um ritmo trepidante de colocações julgo que quando conseguir meter algo por lá o texto em causa já estará no limbo do pé de ecrã. Daí que o aborde aqui. Reza assim:
"Moçambique tem das mais baixas taxas de escolaridade do mundo.
Moçambique tem das mais altas taxas de crescimento económico do mundo (na casa dos 10% ao longo dos últimos anos).
Conclusão: os países não ficam ricos porque apostam na educação. Os países apostam na educação quando ficam ricos."
2. Para mim JM é um caso complicado na blogosfera portuguesa. Lendo-o há meses, desde os tempos do seu blog individual, confesso que ainda não o percebi. Bloguista talentoso é-o, verve e acutilância, síntese e provocação. Mas é a sério ou é a brincar? A sociobiologia light, os simplismos sobre o liberalismo, as analogias históricas, tudo isto é assim mesmo ou são só carolos para "abrir cabeças", pedradas na pasmaceira? Confesso-me confuso, medíocre intérprete. Mas custa-me crer num projecto a tão longo prazo de ironia grosseira [leia-se "grossa"] de aparência intelectual (até porque me parece pouco eficaz quanto a "abrir cabeças"). Cada vez mais me convenço em que tudo aquilo é a sério. Se calhar este meu pendor para uma versão "séria" está influenciada pelo actual (e sério) relativo mal-estar de alguns membros do Blasfémias, o qual espero seja em breve ultrapassado. Que aquele postar contínuo já faz parte da blogoespreitadela quotidiana.
3. Isto não é uma questão pessoal, eu leio JM porque gosto de o ler. Se não gostasse ia à minha vida, lia outras coisas, não se justificaria andar para aqui a escrever sobre tudo isto.
Mas tem a ver com o que acho disto tudo, do bloguismo. Há bloguistas que se levam a sério, alguns exageradamente a sério. Outros surgem ligeiros, outros irónicos e, o supra-sumo, auto-irónicos. Há ainda outros insuportavelmente ligeiros.
Cá em casa mora um que tem dias de insuportável auto-convencimento, preocupado com os males do mundo (mais do seu país) e convicto de que a sua palavra vale de algo, heurístico curandeiro. Soberba diria, se católico. Mera estupidez diz, quando mais bem-dormido. Mas entendendo eu um blog como um diário também lhe aceito as variações do humor, e que cada um tem o direito de se achar importante ou desimportante, útil ou inútil, clarividente ou tralalá. E de mudar de ideias ao longo do(s) dia(s).
4. Regresso a JM, porque ilustre blogard. E ao seu post de hoje. Da síntese sobre Moçambique retira uma tese (oops, dialéctica, os alemães, os alemães...): o investimento na educação é exógeno ao crescimento económico.
Ora veja-se, a síntese não vale um caracol. É errada nos seus termos. Absolutos. E relativos (não, não é o temido relativismo, é contextualização, história - e atenção, contextualizar com a história não é historicismo).
[Agora vou à clínica com a miúda, lá para a madrugada continuarei]
[Lamento, fica para logo de manhã]
Etiquetas: Desenvolvimento







5 Comments:
"os países não ficam ricos porque apostam na educação. Os países apostam na educação quando ficam ricos."
É uma verdade empírica, meu caro. Senão o comunismo teria criado os países mais prósperos do mundo.
É evidente que as coisas andam a par, mas a procura pela educação de qualidade é uma consequência da riqueza e do bem estar dos cidadãos.
Aguardo, com curiosidade, pela demonstração objectiva do erro da tese do João Miranda.
jcd
Ma-Schamba
« Um Ano formal | Entrada | antes do Crescimento e Educação, »
dezembro 13, 2004
Crescimento e Educação
João Miranda acaba de colocar um texto no Blasfémias utilizando Moçambique como exemplo de uma tese.
1. Há alguns dias que tenho grandes dificuldades em comentar no sistema blogspot, recebo negativas mal-criadas deste teor: "Open proxy detected. Comment posting disabled. If you think you have received this message in error, please contact the webmaster." Como o Blasfémias tem um ritmo trepidante de colocações julgo que quando conseguir meter algo por lá o texto em causa já estará no limbo do pé de ecrã. Daí que o aborde aqui. Reza assim:
"Moçambique tem das mais baixas taxas de escolaridade do mundo.
Moçambique tem das mais altas taxas de crescimento económico do mundo (na casa dos 10% ao longo dos últimos anos).
Conclusão: os países não ficam ricos porque apostam na educação. Os países apostam na educação quando ficam ricos."
2. Para mim JM é um caso complicado na blogosfera portuguesa. Lendo-o há meses, desde os tempos do seu blog individual, confesso que ainda não o percebi. Bloguista talentoso é-o, verve e acutilância, síntese e provocação. Mas é a sério ou é a brincar? A sociobiologia light, os simplismos sobre o liberalismo, as analogias históricas, tudo isto é assim mesmo ou são só carolos para "abrir cabeças", pedradas na pasmaceira? Confesso-me confuso, medíocre intérprete. Mas custa-me crer num projecto a tão longo prazo de ironia grosseira [leia-se "grossa"] de aparência intelectual (até porque me parece pouco eficaz quanto a "abrir cabeças"). Cada vez mais me convenço em que tudo aquilo é a sério. Se calhar este meu pendor para uma versão "séria" está influenciada pelo actual (e sério) relativo mal-estar de alguns membros do Blasfémias, o qual espero seja em breve ultrapassado. Que aquele postar contínuo já faz parte da blogoespreitadela quotidiana.
3. Isto não é uma questão pessoal, eu leio JM porque gosto de o ler. Se não gostasse ia à minha vida, lia outras coisas, não se justificaria andar para aqui a escrever sobre tudo isto.
Mas tem a ver com o que acho disto tudo, do bloguismo. Há bloguistas que se levam a sério, alguns exageradamente a sério. Outros surgem ligeiros, outros irónicos e, o supra-sumo, auto-irónicos. Há ainda outros insuportavelmente ligeiros.
Cá em casa mora um que tem dias de insuportável auto-convencimento, preocupado com os males do mundo (mais do seu país) e convicto de que a sua palavra vale de algo, heurístico curandeiro. Soberba diria, se católico. Mera estupidez diz, quando mais bem-dormido. Mas entendendo eu um blog como um diário também lhe aceito as variações do humor, e que cada um tem o direito de se achar importante ou desimportante, útil ou inútil, clarividente ou tralalá. E de mudar de ideias ao longo do(s) dia(s).
4. Regresso a JM, porque ilustre blogard. E ao seu post de hoje. Da síntese sobre Moçambique retira uma tese (oops, dialéctica, os alemães, os alemães...): o investimento na educação é exógeno ao crescimento económico.
Ora veja-se, a síntese não vale um caracol. É errada nos seus termos. Absolutos. E relativos (não, não é o temido relativismo, é contextualização, história - e atenção, contextualizar com a história não é historicismo).
[Agora vou à clínica com a miúda, lá para a madrugada continuarei]
[Lamento, fica para logo de manhã]
Publicado por jpt às dezembro 13, 2004 11:15 PM
Comentários
"os países não ficam ricos porque apostam na educação. Os países apostam na educação quando ficam ricos."
É uma verdade empírica, meu caro. Senão o comunismo teria criado os países mais prósperos do mundo.
É evidente que as coisas andam a par, mas a procura pela educação de qualidade é uma consequência da riqueza e do bem estar dos cidadãos.
Aguardo, com curiosidade, pela demonstração objectiva do erro da tese do João Miranda.
jcd
Publicado por: jcd às dezembro 13, 2004 11:58 PM
JCD
Não é uma verdade empírica.
Vocês estão sempre a dizer esses disparates como se fossem verdades absolutas. Não são. Há uma ciência que estuda as "verdades empíricas" que é a estatística, ou econometria se aplicada a estudos de dados económicos.
A maioria dos estudos empírico-científicos mostra um causalidade que vai da Educação para o desenvolvimento. repara que eu não estou a negar o vice-versa, mas para o caso é irrelevante, pois a tese que tem de ser desmentida é a de que "os países não ficam ricos porque apostam na educação".
Basta ver por exemplo o trabalho da OCDE "education at a glance". Não estou com isto a dizer que não haja (alguns) estudos que concluam o contrário. Mas não pode pura e simplesmente dizer que "é uma verdade empírica". Isso não é honesto.
Isto para não falar da desonestidade que é de comparar países comunistas com capitalistas. Em primeiro não é óbvio, de forma alguma, que o investimento em educação nos países comunistas seja maior do que nos capitalistas, como por exemplo a Suécia ou os EUA. Em segundo, lugar para a comparação ser honesta, tem de comparar países que sejam semelhantes em quase tudo menos na educação. Ou seja comparar países comunistas com países comunistas, países capitalistas com países capitalistas, e subdesenvolvidos com subdesenvolvidos; caso contrário não pode destrinçar as causas.
Luís Aguiar-Conraria
O João Miranda é um bom exemplo dum crente na "doutrina pura". Todas as doutrinas têm e tiveram os profetas da doutrina pura. Geralmente são muito inteligentes, mas acabam vitimas da elegância intelectual. Da irressitivel beleza da simplicidade. Como é que algo tão belo e claro não pode ser verdade?
Factos que sujam-na devem ser resultado de pesquisa empírica falaciosa...
Olha só a frustração dos físicos teóricos que tiveram, partindo duma teoria tão simples e elegante como a da relatividade, aos poucos de aceitar um zoo sobrepovoado de particulas elementares, nove ou dez dimensões, dos quais cinco ou seis "muito pequenos e enrolados", mas não tiveram outro remedio do que aceitar a "sujidade"...por enquanto.
Simplicidade é bela, mas não é prova de verdade.
Assustador é a convicção absoluta com a qual os teóricos da doutrina pura a defendem. E um olhar para a história mostra nos como eles sempre foram exemplares muito perigosos da nossa espécie...
Lutz
Sem falsa modéstia, aprás-me fazer o seguinte comentário, para reflexão.
Será que essas "culturas primitivas" não têm "educação"?
Não estaremos nós a olhar sobraceiramente para esses povos e para as suas capacidades?
Obrigado pela vossa atenção.
Rafael Brito
não me refiro à contradita, que nem me dei ao trabalho de ler a dita. dou-me apenas por achado com esta magnífica reflexão sobre o blogar. que pena tenho eu de já não actualizarmos o metablogue, este post teria assento lá. directo. gostei muito.
jpn
Enviar um comentário
Links to this post:
Criar uma hiperligação
<< Home